quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Desperto

Caminhava por detrás de grandes óculos, terno amarrotado por metrôs lotados e pasta enigmática com fecho quebrado. Enquanto as ruas passavam por ele, os postes lhe sorriam sem muita receptividade, as horas corriam contra o tempo, mesmo as coisas que lhe pareciam contraditórias (como o horário de verão na primavera) faziam algum sentido, mas Epifânio em sua discrepante incompreensão, não.
Estava de braços dados com o abandono, o convívio o tornara a cara da indolência. Abandou seu jeans predileto, a barba por fazer, os pães da padaria, as caminhadas do fim da tarde, renunciou seu aquário querido, deixando morrer o peixe Billy, presente de uma ex namorada dos tempos de faculdade e tal qual um peixe fora d’água estava mais esgotado que o próprio Billy, que já partira dessa para melhor.  
Dois prédios, uma rua ao meio , uma janela e uma ideia,  essa era a distância que o separava do motivo que mudaria sua vida, lá estava ela, sentada e distraída, cabelos ruivos, primeiro dia de trabalho, o relógio fazia barulho, era meio dia, um ruído que nada mudaria o trajeto de seus olhos, apenas uma percepção desperta, vivaz. Após o tic do ponteiro, um tac entre os olhares que se encontraram, as mãos de Epifânio correram até o pincel que estava sobre a mesa, tic, tac... alguns rabiscos e uma placa que dizia: “Oi, tudo bem?”, foi erguida da varanda, o intento surtiu efeito, arrancando da moça bonita um sorriso aberto e alguns raios de sol. Até aqui, apenas uma divergência, uma Epifania ou a coerência que antes não existia, Epifânio enfim enxergava a vida.

- Carine Morais

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Chuviscando

Eu escrevo porque chove.
Enquanto sinto a boca seca, outras águas me transbordam.
Quando escrevo molho a palavra com a ponta da caneta, mato a sede, me liberto, derramo chuva no papel.

- Carine Morais

sábado, 24 de novembro de 2012

O empréstimo

Éramos todos moleques, criados às custas de frutas roubadas do pé, brincadeiras de criança e banhos de córrego no final da tarde. Um grupo seleto de muitas meninas e alguns poucos meninos, desde muito cedo as mulheres já predominavam a pequena vila. Entre os garotos do grupo estava Tizinho, nosso mascote, Tizinho porque o nome dele era Denílson, mas era somente assim que conseguia chamar o tio Zildo da Farmácia, tinha a língua presa e um apelido mais grudado ainda, ficou para sempre, como todo nome sem jeito que recebemos sem querer.
A vida parecia pequena naquele lugar, pequena porque éramos pouco crescidos para entendermos a imensidão de ruas tão estreitas, na verdade, tornavam-se gigantes por suas histórias, estávamos sempre informados de tudo que acontecia,  como o desaparecimento do Diego em dia de Cosme e Damião, e a festinha de 6 anos da Gláucia  a menina mais bonita do bairro, que quando andava balançava os cabelos de um lado para o outro. Referências marcadas em nossas memórias.
O local dos grandes acontecimentos era na rua "E", imagino que era "e" de encantada, uma rua comprida, sem muito acesso e com gigantescos pés de eucaliptos na saída, que não era bem uma saída, mas parecia infinita mesmo assim, ao lado das grandes árvores havia um terreno abandonado com terra batida e marcas de areia no chão, e é falando sobre esse pequeno cenário de gladiadores mirins que inicio minha história aqui pelo meio, no campinho de futebol, onde tudo começou.
Era um campeonato decisivo, para os moleques uma Copa do nosso mundo encantado, na torcida as meninas vibravam, inclusive eu, com grito de guerra ensaiado na garganta e pompons de papel crepom nas mãos, em menos de três minutos para iniciarem a grande partida, um conflito que partiu um coração, o de Tizinho. Chateado por outro ter sido escolhido em seu lugar, Ricardo o encrenqueiro, gritou da beira do campo, para o atacante do time:
-  Luis não joga com o Tizinho não, porque ele não tem pai!
Em um único tom, todos disseram: Hóoo! Estáticos pela afirmação.
Os olhos de Tizinho se arregalaram, tamanha era a força de seu espanto, teve tremedeira, suadeira, ânsia de choro... E chorou.
- Você não pode dizer isso Ricardo, não sabe do que está falando! Gritou Andrea a prima do pequeno Tizinho que estava na arquibancada.
- Pouco me importa sua bobalhona! Diga então a todos o que eu ainda não sei!
- O Tizinho não tem pai, porque o pai dele já morreu! Desabafou a menina disparando seu olhar de defesa a todos que ali estavam.
A gurizada nesse instante chocou-se inevitavelmente, porque morrer no nosso entendimento de criança era uma tremenda tristeza, era um sumiço que se sucedia e que pouco entendiamos, só sabíamos que era algo muito ruim, e o pior, era para sempre. Todos os olhares se lançaram em uma única direção, aquele rosto no meio do campo era um menino tristonho. Foi nesse instante que uma voz amigável surgiu por detrás dos reservas:
- Tizinho, se você não se importar, posso te emprestar o meu pai. Falou Luis, um tanto desajeitado.
Uma outra voz  também disse: "É, eu também."
E outra disse: "Sim, eu também posso". "É eu também..." "Sim eu posso..." "Eu também..."
De repente todos no campinho começaram a sugerir um empréstimo de pais por tempo indeterminado, até o Bernardo que era criado pelo padrasto deu sua contribuição, nessa hora Tizinho se encolheu dentro dos ombros, estava desconsertado, era assim que ele reagia quando estava encabulado, achou aquilo tudo um barato, quantos pais ele teria para ir em suas reuniões da escola? Quantos presentes de Natal? E quantos irmãos ele teria dali em diante! A atitude da molecada foi motivo de comemoração, fizeram o maior tumulto como se  a oferta de todos aqueles novos pais fosse a vitória de uma grande final, e foi, em especial para Tizinho, que mesmo sem partida e muitos gols, não parava de sorrir.

- Carine Morais

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Jacobina

Sentou-se na beira da cama e com a pontinha dos pés procurou por seus chinelos, ao arrasta-los notou que aquele par que a acompanhava há mais de um ano, parecia menor que o habitual, lembrou-se que desde sua mocidade seus sapatos sempre foram de número 38, motivo pelo qual a fazia reclamar de seus encalços indelicados, um tanto quanto grosseirões, mas aquele em especial caíra gradativamente para 36, ou seriam seus pés que já não eram mais  os mesmos? Arremeteu-se de um pensamento bobo, mas completamente lúcido para seus 87 anos de idade: "a gente encolhe com o tempo". Levantou com dificuldade, vestida com casaquinho de lã e bolinhas de cobertor entre os cabelos, os chinelos que acreditava serem sempre os mesmos, haviam sido trocados por uma colega de quarto do simplório asilo "Casa de Vivência", mas ao contrário de qualquer outra coisa que pudesse ser trocada ou abandonada, levava consigo um sentimento que nunca a desamparava, colocou-se de pé em frente ao espelho e com uma certeza que brilhava, disse para si mesma,  reconfortada: "hoje é dia de ser feliz" e sorriu, graciosa, satisfeita, sem mover as bochechas ressaltadas pelo tempo.

- Carine Morais

A missão do amor

 O homem sempre acreditou ter a missão de amar, mas ao contrário do que se pensa é o amor que nos tem como missão, está sempre disposto a nos alcançar.

- Carine Morais
Imagem: Cúpido por Paris Bordone

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

O homem que acordou sem saber se estava vivo

Abriu os olhos lacrimejados com remelas adormecidas, saiu para ver o sol tinindo queimando as roupas no varal, já na porta da casinha de Taipa deparou-se com a vida, prontamente abriu os braços para recebe-la, doída, efêmera, espalhafatosa, alguma verdades chocaram-se contra o peito, viu na experiência do dia a dia o que os estudiosos já previam na filosofia, na antropologia da vivência: toda dúvida gera mudança, duvidar é abrir espaço para o novo. 
Questionou se aquela vida seguiria, quis ser forte para lutar, sem pão e sem comida, abriu mão da sertaninha vila de Santa Cruz, interiorzinho do Ceará, foi-se embora para São Paulo, lá a vida era incerta, mas provável de muitas opções. Antes da partida, a mãe não queria, o pai não queria, nem os dez irmãos, de pergunta em pergunta respondeu a todos de uma só vez, em especial para si mesmo: aqui nasci, lá quero renascer, meu sonho de viver nesse lugar se foi com a chuva, que já não vejo mais cair, vou embora, mas um dia volto pra buscar vocês. Segurou-se a única certeza  e com lágrimas cheias de saudade, deixou para traz a terra que o concebou.
Após horas incontáveis, chegou ao seu destino, lugar desconhecido onde a lua cintilava, estrelas pouco se via, os prédios cobriam toda a cidade, no banco da rodoferroviaria dormiu pelo tamanho do cansaço, abriu os olhos quando já era dia, duvidava se aquilo tudo era verdade, só sabia que por dentro seu passado lhe comovia. 
Subitamente interrogações lhe agarraram pela gola da camisa o fazendo levantar, despertou numa tristeza que doía, apesar de ser um homem de incertezas, era cheio de muita coragem, não sabia ao certo que horas seriam, nem para onde iria, com a morte de um sonho lhe remoendo por inteiro, manteu-se vivo por insistência, acordou indisplicente, sem saber se estava vivo.

- Carine Morais

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Há quem seja dominado pela palavra, mas há aquele que possui a palavra na palma da mão.

81 minutos de documentário e eu passaria a tarde inteira conhecendo um pouco mais de Manoel de Barros. Um trabalho lindo, completo, fantástico e incomum, estou encantada com minha mais nova descoberta: a poesia manoelesca, cheia de simplicidades, insignificâncias valiosas e miúdezas raras.


 - Documentário sobre vida e obra de Manoel de Barros.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Digno de ser

"E nenhum poema será tão grande, tão nobre, tão verdadeiramente digno do nome de poesia quanto aquele que foi escrito tão só e apenas pelo prazer de escrever um poema."

- Edgar Allan Poe

terça-feira, 6 de novembro de 2012

O não-real o não-palpável

Eu não sou o que escrevo ou sim, mas de muitos jeitos. Alguns estranhos.

- Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Heloísa

A manhã era fria, com o sol tentando sair lá fora, mas a grande neblina não o deixava. Heloísa havia acordado bem cedo, colocou-se de pé em frente a penteadeira envernizada e já não era mais uma menina com sete anos de idade, ao menos essa não era a sua visão, desejava ser adulta, tão bonita e enfeitada quanto sua mãe, um exemplo de vaidade; apesar da coerência do tempo, aquela manhã havia passado depressa, com a velocidade de onze anos mais tarde, um pulinho rápido, no futuro que a esperava. 
De volta para o presente, um grito na porta do quarto:
- Hô mãe, a Heloísa tá destruindo sua maquiagem! Gritava Marina, a irmã caçula um tanto quanto mimada.
- É mentira dela mãe, não tô fazendo nada. Rebatia Heloísa, enquanto limpava a maquiagem nas mangas do pijama. A mãe irritada com a briga das meninas, saiu da cozinha em direção ao quarto quando se deparou com a seguinte cena: Maquiagens espalhadas pelo chão, batom amassado no vidro do espelho, sombras cintelescas quebradas ao meio e o rosto de Heloísa completamente pintado. O resultado já era de se esperar, muitas broncas e o castigo de ficar o dia inteiro sem sair do quarto. No sofá da sala Marina contia o sorriso maldoso do infortúnio da irmã mais velha, enquanto a menina inconformada, maquinava uma forma de escapar dali.
O plano era bem simples, reunir o maior número de roupas possíveis para tentar fugir, e assim ela o fez: numa trouxinha velha reuniu peça por peça de seus pertences mais valiosos: uma calcinha de babado, um shortinho para o calor, uma camisetinha sem mangas e a Barbie sereia que ganhou de Natal. Após uma conferência rápida do que necessitava, deu um nó ligeiro, fez um laço de qualquer jeito, tudo muito bem pensado, em poucos minutos seu plano de fulga estaria consumado.
Marina era astuta, assistia aos seus desenhos favoritos imaginando que sua irmã jamais aceitaria o castigo que recebera, tranquilamente foi até o quarto e descobriu que ela estava de caso pensado, confirmou suas suspeitas quando a própria Heloísa afirmou que nunca mais voltaria ali.
Correu depressa até o quintal onde sua mãe regava plantas de todos os tipos, disse afobada:
- Mãe, a Heloísa falou que vai fugir!
A mãe não deu muita importância, continou a regar. Encafifada, minutos depois, Marina retornou ao jardim.
- Manhêe, a Heloisa tá fugindo, ela tá indo embora.
De nada adiantou. Virou-se de costas recolhendo adubo para as rosas.
Impulsivamente, Marina puxou a saia da mãe, afim de chamar sua atenção e falou insistente:
Hô mãe, a senhora não me escutou não?! A Heloísa tá fugindo de casa!
Virou-se institivamente. 
- Que conversa é essa Marina? Eu a deixei de castigo.
- É. Só que ela não quer mais morar com a gente. 
A mãe correu até o quarto, chamou Heloísa duas vezes, ela não respondeu. Abriu a porta com cuidado e deparou-se com a fuga de sua pequena.
Heloísa estava deitada na cama, agarrada a trouxinha de roupas, dormindo em sono profundo com sua boneca debaixo do braço, o plano não havia dado certo, a mãe abriu a trouxa que ela pretendia carregar, sorriu ao perceber como era doce a ingenuidade de criança,  aproximou-se da menina deu-lhe um beijinho no rosto e aliviou-se com a sorte de a te-la ali tão perto.

- Carine Morais

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Anseio

Quero tudo em mim,
todas as cores,
Todos os risos,
Todas as danças,
Toda canção que marca,
Todos os timbres,
Todas as raças.
Quero toda coragem de ser
Sem a aparência de nada parecido,
Não quero a cópia,
A imitação forjada,
A xerox apagada.
Quero tudo unicamente em si,
Ver em mim,
Infinitamente ter
Toda a vida que vejo ser.

- Carine Morais