quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Haverá de ser

Vai haver um dia em que a poesia brilhará, 
Será como farol que guia,
luz em noite vazia. 
Reluzente, 
iluminará o caminho dos que perdidos
não sabem se encontrar.
Um ponto de partida dentro da emoção.
Haverá de ser e será,
guiados pelo amor, saberão onde chegar.

- Carine Morais

Escrever

Escrever porque um fio de pensamento nos faz desenrolar um montão de palavras, somos tecelões de letras, bordamos sentimentos, versos, vida, e nas cores mais bonitas que se pode existir. Somos artesões de textos e contextos que muito dizem sobre aquilo que enxergamos. Escrever é uma forma bonita de entregar ao leitor um presente feito a linha, criado e refinado com carinho, por nossas próprias mãos.

- Carine Morais

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Escrevo porque amanhece

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

- Paulo Leminski

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Aos 13

Lá estava ela, Marina, cabelos presos no alto da cabeça, mochila caída com as alças folgadas na altura da coxa, e por incrível que pareça tênis All Star limpinho, ela só gosta sujo. Ele:

- Ei psiu!

(Não olhou)

Variação do psiu:

- Psiteeee!

(Nada)

Horas mais tarde na esquina do cachorro quente eles se encontraram quando a noite escurecia, veio a interrogação:

- Marina! Oi... (sorriso bobalhão) te vi saindo da escola mais cedo, te dei um psiu, mas você nem me olhou.

- Ha! (ar de lamentação) se me chamasse de Joana, Paula, Joaquina, Antonieta eu olharia.

- Ué, mas seu nome não é Marina!?

- É sim e se chamasse eu também olharia. Psiu não é nome de gente.

(Silêncio)

Ele, amor aos 13.
E ela, nem sabia.

- Carine Morais

sábado, 22 de setembro de 2012

Meio amor

Estou cansada de não sermos nada. Indefinidos, não somos namorados, nem amantes, nem amigos. Juntos somos apenas metade, incompletos. Falta um pedaço de tudo. Somos meio sem sentido, meio sei lá qualquer coisa, porque depois que inventaram esse termo, o sentimento que era um todo, virou meio, estágio antes da conclusão. É um quase meio amor e se não é inteiro é o mesmo que nada, pelo menos para nós.

Carine Morais

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Quando nasce um escritor

Uma a cada mil crianças nasce escritora, nasce aquela que nos primeiros anos de vida enxerga o mundo além das cores preto, branco e colorido. 
Aquela que persegue freneticamente uma borboleta despretensiosa só para descobrir o mistério de ver seus pezinhos triscando numa flor, que tenta descobrir até onde vai o arco-íris e acredita mesmo depois de crescido, que existe um pote de ouro escondido onde ele termina.
O pequeno escritor ainda bebê recita seu próprio choro e se acalma com músicas inventadas pelos pais, ele  tem à flor da pele, o sentimento do que é belo e sublime. Consegue ver graça em dias de chuva, mesmo perdendo suas partidas de futebol no campinho da esquina e enquanto boa parte dos outros guris se encolhem entre os cobertores nos dias de inverno, ele descola revistas criativas para colorir ou pede para que seu adulto favorito lhe conte alguma história. Já as pequenas autoras de tão sensíveis e apuradas, materializam cantigas de roda e caminham sorridentes por pedrinhas de brilhante. 
Nada passa despercebido por esses pequenos e o gosto pelas palavras vem desde muito cedo, vem pela gargalhada com um "A" entoado diferente, pelo bocejo com o "O" que salta no final do suspiro, vem quando aprende a escrever seu próprio nome e se sente orgulhoso de suas letras garrafais. 
Os futuros autores, jornalistas, poetas e quem sabe compositores, se precipitam em aprender a ler, decifram o código da escrita, viajam em livros de figuras divertidas, inventam fábulas para si mesmos e só eles conseguem enxergar objetos em formato de letrinhas, sofá em forma de S, coração em forma de C, porque o mundo das palavras gira dentro de seus olhos. 
Quem pela divindade possui esse dom, nasce com o talento subliminar de descrever tudo aquilo que sente, quando criança é notável sua desenvoltura para dar nome aos bichos, ao amigo imaginário e quando crescido consegue transcrever com a leveza de um equilibrista aquilo que cada um expressa secretamente. 
Não que as outras crianças não possam ter essa sensibilidade, elas também podem ser tangíveis a outros olhares, podem se tornar bons músicos, dançarinos, pintores, escultores ou tudo isso ao mesmo tempo, mas aquela que nasce com a aptidão de escrever  se destaca a cada mil crianças e sua chegada ao mundo deve ser comemorada com sorrisos e muita festa.  

Carine Morais
Imagens - Robert Doisneau


Ninguéns

Toda a vida acreditei:
amor é os dois se duplicarem em UM.
Mas hoje sinto: ser um é ainda muito.
De mais.
Ambiciono, sim, ser o múltiplo de nada,
Ninguém no plural.

- Ninguéns. -

Mia Couto

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

terça-feira, 18 de setembro de 2012

De repente verso

Toda vez que eu te vejo, 
escrevo com o pensamento,
poema esse que vêm na mente, 
coisas que a gente sente.
Se é paixão ou e se é amor? 
Me pergunto sutilmente.
Vem canção, vem poesia,
desatino insolente,
Se eu escrevo de cabeça, faço verso de repente.
Essa tinta que eu escrevo, 
só quem amar pode ter.
Pode não ter fundamento, 
mas escrevo com o pensamento
Toda vez que penso em você.

Carine Morais

Sobre ela...

Não há virtudes que se coloque depois das vírgulas, é como se não adiantasse dizer que ela é tudo isso que eu não sei explicar, tá, deixa pra lá. Ela é linda, dois pontos: Com toda beleza que se pode ser.

- Carine Morais

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Velhas gavetas

"Lembranças de amores passados, fotos de casal perdidas pelo chão, camiseta velha de um amor antigo, música breguinha tocando no som..."
Andei meio perdida nos últimos tempos, mas não era bem assim que eu queria me encontrar, com Doritos, Coca-cola e melodrama de TV. Eu falo sério quando digo que não me acho e entre velhas gavetas amontoadas, numa delas você me achou. 
Não vá agora, fica mais um pouco, vai. 
A poeira vai baixar.

-Vida sentimental tá uma zona, mas eu arrumo a bagunça pra você entrar.

Carine Morais

L i n d a é uma palavra bela por fora e por dentro; e a Adriana Falcão sabe ser.

PALAVRAS 
As gramáticas classificam as palavras em substantivo, adjetivo, verbo, advérbio, conjunção, pronome, numeral, artigo e preposição. Os poetas classificam as palavras pela alma porque gostam de brincar com elas e pra brincar com elas é preciso ter intimidade primeiro. É a alma da palavra que define, explica, ofende ou elogia, se coloca entre o significante e o significado pra dizer o que quer, dar sentimento às coisas, fazer sentido. Nada é mais fúnebre do que a palavra fúnebre. Nada é mais amarelo do que o amarelo- palavra. Nada é mais concreto do que as letras c, o, n, c, r, e, t, o, dispostas nessa ordem e ditas dessa forma, assim, concreto, e já se disse tudo, pois as palavras agem, sentem e falam por elas próprias. A palavra nuvem chove. A palavra triste chora. A palavra sono dorme. A palavra tempo passa. A palavra fogo queima. A palavra faca corta. A palavra carro corre. A palavra palavra diz. O que quer. E nunca desdiz depois. As palavras têm corpo e alma mas são diferentes das pessoas em vários pontos. As palavras dizem o que querem, está dito, e pronto, as palavras são sinceras, as segundas intenções são sempre das pessoas. A palavra juro não mente. A palavra mando não rouba. A palavra cor não destoa. A palavra sou não vira casaca. A palavra liberdade não se prende. A palavra amor não se acaba. A palavra idéia não muda. Palavras nunca mudam de idéia. Palavras sempre sabem o que querem. Quero não será desisto. Sim nunca jamais será não. Árvore não será madeira. Lagarta não será borboleta. Felicidade não será traição. Tesão nunca será amizade. Sexta-feira não vira sábado nem depois da meia-noite. Noite nunca vai ser manhã. Um não serão dois em tempo algum. Dois não será solidão. Dor não será constantemente. Semente nunca será flor. As palavras também têm raízes mas não se parecem com plantas a não ser algumas delas, verde, caule, folha, gota. As células das palavras são as letras. Algumas são mais importantes do que as outras. As consoantes são um tanto insolentes. Roubam as vogais pra construírem sílabas e obrigam a língua a dançar dentro da boca. A boca abre ou fecha quando a vogal manda. As palavras fechadas nem sempre são mais tímidas. A palavra sem-vergonha está aí de prova. Prova é uma palavra difícil. Porta é uma palavra que fecha. Janela é uma palavra que abre. Entreaberto é uma palavra que vaza. Vigésimo é uma palavra bem alta. Carinho é uma palavra que falta. Miséria é uma palavra que sobra. A palavra óculos é séria. Cambalhota é uma palavra engraçada. A palavra lágrima é triste. A palavra catástrofe é trágica. A palavra súbito é rápida. Demoradamente é uma palavra lenta. Espelho é uma palavra prata. Ótimo é uma palavra ótima. Queijo é uma palavra rato. Rato é uma palavra rua. Existem palavras frias como mármore. Existem palavras quentes como sangue. Existem palavras mangue, caranguejo. Existem palavras lusas, Alentejo. Existem palavras itálicas, ciao. Existem palavras grandes, anticonstitucional. Existem palavras pequenas, microscópico, minúsculo, molécula, partícula, quinhão, grão, covardia. Existem palavras dia, feijoada, praia, boné, guarda-sol. Existem palavras bonitas madrugada. Existem palavras complicadas, enigma, trigonometria, adolescente, casal. Existem palavras mágicas, shazam, abracadabra, pirlimpimpim, sim e não. Existem palavras que dispensam imagens, nunca, vazio, nada, escuridão. Existem palavras sozinhas, eu, um, apenas, sertão. Existem palavras plurais, mais, muito, coletivo, milhão. Existem palavras que são palavrão. Existem palavras pesadas, chumbo, elefante, tonelada. Existem palavras doces, goiabada, marshmallow, quindim, bombom. Existem palavras que andam, automóvel. Existem palavras imóveis, montanha. Existem palavras cariocas, Corcovado. Existem palavras completas, elas todas. Toda palavra tem a cara do seu significado. A palavra pela palavra tirando o seu significado fica estranha. Palavra, palavra, palavra, palavra, palavra, palavra, palavra, palavra, palavra, palavra, palavra, palavra, palavra, palavra, palavra, palavra não diz nada, é só letra e som.


Adriana Falcão

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Aqui estou, apaixonada por Ali.


Ali - Skank
Ela entrou e eu estava ali
Ou será que fui eu que ali entrei
Sem sequer pedir a menor licença?
Ela de batom caqui
Com os olhos olhava o quê? Eu não sei
Olhos de águas vindas
De outros oceanos
Ela me olhou - Quem?
Quem sabe com ela
Eu teria as tardes
Que sempre me passaram
Como miragens, como invenção!
Se eu não posso ter
Fico imaginando
Eu fico imaginando
Virá com ela que entrega
Virá, sim, assim virá que eu vi
Virá ou ela me espera
Virá, pois ela está ali
Ela amou o que estava ali
Ou será que foi dela o que eu já amei
Como os laços fixos de uma residência?
Ela: Alô!? E eu não reagi
Com os olhos olhava o que eu lembrei
Quando andava indo
Em outra direção
Ela me olhou - Vem!
Quem sabe com ela
Eu veria as tardes
Que sempre me faltaram
Como miragens, como ilusão!
Se eu não posso ver
Fico imaginando
Eu fico imaginando
Virá com ela que entrega
Virá, sim, assim virá que eu vi
Virá ou ela me espera
Virá, pois ela está ali
Ela andou e eu fiquei ali
Ou será que fui eu que dali mudei
Com uns passos mudos
De uma reticência?
Ela me olhou bem
Quem sabe com ela
Eu teria achado
O que sempre me faltava
Cores, colagens, sons, emoção!
Se eu não posso ser
Fico imaginando
Eu fico imaginando
Virá com ela que entrega
Virá, sim, assim virá que eu vi
Virá ou ela me espera
Virá, pois ela está ali

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Timitus

Com os pés descalços e lisos, eu me jogo sem pensar. Liberdade só assusta pra quem tem medo de errar.

Carine Morais

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Seus olhos

"Também acho uma delícia quando você esquece os olhos em cima dos meus."

Chico Buarque

Quem sabe...

"Quem sabe um dia, por descuido ou poesia, você goste de ficar?"

Chico Buarque

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Condição de entrega

"Romance, surpresa etc, não chegam a ser novidade em termos de pré-requisitos para um amor ideal, supondo que amor ideal exista, mas "condição de entrega" me fez erguer o músculo que fica bem em cima da sobrancelha, aquele que faz com que a gente ganhe um ar intrigado, como se tivesse escutado pela primeira vez algo que merece mais atenção.
Mesmo havendo amor e desejo, muitas relações não se sustentam, e fica a pergunta atazanando dentro: por quê? O casal se gosta tanto, o que os impede de manter uma relação estável, divertida e sem tanta neura?

Condição de entrega: se não existir, a relação tampouco existirá pra valer. Será apenas um simulacro, uma tentativa, uma insistência.
Essa condição de entrega vai além da confiança. Você pode ter certeza de que ele é uma pessoa honesta, de que falou a verdade sobre aquele sábado em que não atendeu ao telefone, de que ele realmente chegará na hora que combinou. Mas isso não é tudo. Pra ser mais incômoda: isso não é nada.
A condição de entrega se dá quando não há competitividade, quando o casal não disputa a razão, quando as conversas não têm como fim celebrar a vitória de um sobre o outro. A condição de entrega se dá quando ambos jogam no mesmo time, apenas com estilos diferentes. Um pode ser mais rápido, outro mais lento, um mais aberto, outro mais fechado: posições opostas, mas vestem a mesma camisa."



Martha Medeiros